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ARQUITETOS DE JOGOS

Histórias

Gunpoint: o jornalista que fez um jogo com US$ 30

Ele escrevia sobre jogos numa revista e nunca tinha programado. Comprou um programa de 30 dólares, levou cerca de três anos e saiu da revista para fazer jogos.

Por Publicado em 5 min de leitura

Ilustração em pixel art: à noite, um homem visto de costas e um pequeno robô na mesa olham um monitor com um jogo de espionagem, em que um prédio aparece cortado ao meio, um espião de sobretudo se esconde num andar e fios dourados ligam um interruptor a uma porta. Imagem gerada por inteligência artificial.

RESUMO PARA QUEM ESTÁ COM PRESSA · 2 min

Gunpoint é um jogo de espionagem lançado em 2013 por Tom Francis, que escrevia na revista PC Gamer e não tinha formação em programação. Ele fez o jogo nas horas vagas, com o Game Maker 8, um programa de 30 dólares, e chamou artistas e músicos. Levou cerca de três anos, sem IA, e o caso dele é uma exceção.

  • Tom Francis era editor da revista PC Gamer, no Reino Unido, e não tinha formação em programação, segundo a Wikipedia.
  • Em maio de 2010, ele anunciou no próprio blog que ia fazer um jogo, e se descreveu como alguém sem tempo e sem experiência.
  • A ferramenta foi o Game Maker 8, um programa de fazer jogos que custou 30 dólares, o único gasto direto do jogo, segundo ele.
  • A arte ficou com dois artistas e a música com três músicos, que ele chamou pelo blog.
  • O Gunpoint saiu em 3 de junho de 2013, cerca de três anos depois do começo (conta nossa).
  • Segundo o autor, os 30 dólares voltaram 64 segundos depois de abrir a pré-venda, e ele saiu da revista para fazer jogos.
  • Em outubro de 2026, 97% das 8.238 avaliações em inglês na Steam eram positivas.

Seu primeiro passo: Escreva numa frase o que você mudaria num jogo de que gosta, como Tom Francis fazia nas críticas que escrevia, e guarde essa frase como a semente do seu jogo.

Ouvir a matéria · 6 min

Em formato de podcast, com a voz de um narrador.

Quem é Tom Francis?

Tom Francis é o autor do Gunpoint, e quando começou o jogo ele escrevia sobre jogos: era editor da PC Gamer, uma revista de jogos de computador do Reino Unido1. Não tinha formação em programação1.

O que ele tinha era anos de críticas. Nelas, sempre sugeria como um jogo poderia ser melhor, e a ideia do Gunpoint nasceu desse hábito1. Querer fazer o próprio jogo era antigo: ele escreveu que era algo que queria fazer havia boa parte da vida adulta2.

Como um jornalista sem experiência começou um jogo?

Começou com uma desculpa a menos. Em maio de 2010, Tom Francis contou no blog dele que o Spelunky, um dos seus jogos favoritos, tinha sido feito por uma pessoa só, num programa chamado Game Maker2. Para ele, isso tirava a última desculpa para não tentar2.

No mesmo texto, ele se apresentou como alguém com "little time, less talent and no experience", pouco tempo, menos talento e nenhuma experiência2. Chegou a abrir o código do Spelunky para aprender, e achou difícil demais para ele2. Previu que só fazer o personagem se mexer bem levaria uns seis meses2.

O programa escolhido foi o Game Maker 8, um programa de fazer jogos que custou 30 dólares1. Foi o único gasto direto do jogo, segundo ele3. Em cerca de um mês, já havia uma primeira versão jogável, que ele mostrou no blog1.

Ele fez o jogo sozinho?

Não. O código e o desenho do jogo (as regras, as fases) ficaram com ele, mas a arte e a música vieram de fora1. Em 2011, ele pediu no blog que artistas mandassem amostras, recebeu muito mais do que esperava e escolheu dois: John Roberts e Fabian van Dommelen1. A música ficou com três músicos chamados do mesmo jeito: Ryan Ike, Francisco Cerda e John Robert Matz1.

Tudo isso nas horas vagas, enquanto continuava trabalhando na revista1. O jogo saiu em 3 de junho de 2013, para computador1. Do anúncio no blog ao lançamento foram cerca de três anos (conta nossa).

Como se joga o Gunpoint?

Você é um espião que trabalha por encomenda e invade prédios para roubar informações14. O prédio aparece cortado ao meio, como uma casa de bonecas, com os andares, os guardas e os fios à mostra.

A ferramenta principal é o Crosslink, um aparelho que mostra os circuitos do prédio e deixa você religar um objeto a outro1. Um interruptor de luz passa a abrir uma porta trancada; ou passa a abrir um alçapão, e o guarda que vai acender a luz cai no andar de baixo4.

A graça está nessa troca: o jogo dá as peças e você inventa a saída. Os guardas andam armados, e ser visto é morte na hora, uma escolha do autor para que as armas fossem levadas a sério1. No fim de cada missão, você recebe nota pelo tempo, pelo barulho e por quantas vezes foi visto1. O jogo ainda vem com um editor de fases1.

O jogo deu certo?

Deu, segundo o autor e a crítica. Tom Francis contou que os 30 dólares do programa voltaram 64 segundos depois de abrir a pré-venda; contando a divulgação e os contratos, o gasto voltou em algumas horas3. A pré-venda passou do que ele esperava, e ele saiu da revista para fazer jogos em tempo integral3.

A crítica gostou: a média no Metacritic, site que junta as notas das revistas, ficou em 83 de 1001. A própria PC Gamer não publicou nota, para evitar conflito de interesse1. Em outubro de 2026, 97% das 8.238 avaliações em inglês na Steam, a maior loja de jogos de computador, eram positivas4.

Depois vieram o Heat Signature, em 2017, e o Tactical Breach Wizards, em 2024, pelo estúdio dele, a Suspicious Developments1. Em 2015, ele lançou uma série de vídeos para ensinar quem nunca fez jogo a começar, com o mesmo tipo de programa que tinha usado5.

Em números

DadoValorFonte
Começo do jogoMaio de 2010Pentadact, 03/05/20102
Custo da ferramenta30 dólares, o Game Maker 8, único gasto diretoPentadact, 18/06/20133
EquipeO autor, dois artistas e três músicosWikipedia1
Lançamento3 de junho de 2013, para computadorWikipedia1
Tempo até o lançamentoCerca de três anos (conta nossa)Wikipedia1
Tempo para recuperar os 30 dólares64 segundos de pré-venda, segundo o autorPentadact, 18/06/20133
Média da crítica83 de 100 no MetacriticWikipedia1
Avaliações na Steam97% positivas, de 8.238 em inglês (outubro de 2026)Steam4

O que a história do Gunpoint mostra, e o que não mostra?

Mostra que alguém sem formação em programação fez um jogo elogiado, com uma ferramenta barata, nas horas vagas. Mostra também que a ideia veio do que ele sabia de sobra: anos jogando e criticando jogos (leitura nossa).

O outro lado

O Gunpoint não prova que é rápido nem que é fácil. Foram cerca de três anos de trabalho fora do horário do emprego, e o jogo não foi feito sozinho: teve dois artistas e três músicos. Tom Francis já trabalhava na área de jogos, conhecia o público e tinha um blog lido por gente da área, o que ajudou a achar a equipe e a vender. Ele não divulgou números de venda nas fontes que lemos. E é a história de um jogo que deu certo, contada justamente por ser rara: a maioria dos jogos lançados vende pouco.

E o que mudou de lá para cá?

Esta parte não é sobre o Gunpoint, que foi feito sem IA. É sobre o trabalho.

Tom Francis previu seis meses só para fazer o personagem andar direito, e aprendeu a programar no caminho2. Hoje, essa parte pode ser feita pela IA: você descreve o que quer e ela escreve os comandos, o que ganhou o nome de vibe coding. Isso não deixa o trabalho fácil: testar, corrigir e decidir continua com você, e ninguém garante o resultado.

O que a IA não traz é o que ele tinha de sobra: saber o que faltava nos jogos de que gostava (leitura nossa). Se você quer ver outros casos, leia quem já fez um jogo sem ser programador e a história da Masako Wakamiya, que fez um jogo depois dos 80. Para entender a parte que mudou, veja se dá para fazer um jogo sem saber programar.

Perguntas relacionadas

Quem fez o Gunpoint?

Tom Francis, que na época era editor da revista PC Gamer, no Reino Unido. Ele fez o jogo nas horas vagas, com dois artistas e três músicos chamados por ele, e lançou em 3 de junho de 2013.

Tom Francis sabia programar quando começou?

Não tinha formação em programação. No post em que anunciou o jogo, em maio de 2010, ele disse que não tinha experiência. Aprendeu fazendo, com o Game Maker 8.

Quanto custou fazer o Gunpoint?

O único gasto direto foi o Game Maker 8, de 30 dólares, segundo o autor. Contando divulgação e contratos, ele disse que o gasto total voltou em algumas horas de pré-venda.

Quanto tempo levou para fazer o Gunpoint?

Cerca de três anos, de maio de 2010 a junho de 2013 (conta nossa), nas horas vagas, enquanto ele trabalhava na revista. O jogo foi feito sem IA.

Como se joga o Gunpoint?

Você é um espião que invade prédios. Com um aparelho chamado Crosslink, liga um objeto a outro, como um interruptor a um alçapão, para tirar os guardas do caminho. Se um guarda armado te vê, a missão acaba.

Quanto o Gunpoint vendeu?

O autor não divulgou números de venda nas fontes que lemos. Ele contou que a pré-venda superou o que esperava e que, com o dinheiro, pôde deixar o emprego e fazer jogos em tempo integral.

Tom Francis fez outros jogos?

Sim. Com o estúdio Suspicious Developments, lançou o Heat Signature em 2017 e o Tactical Breach Wizards em 2024.

Fontes

  1. Wikipedia, "Gunpoint (video game)" (cita Gamasutra, 21/01/2012, Ars Technica, 22/09/2011, e Engadget, 27/05/2013). Acesso em 25/10/2026.
  2. Tom Francis, blog Pentadact, "Private Dick" (03/05/2010). Acesso em 25/10/2026.
  3. Tom Francis, blog Pentadact, "Gunpoint Recoups Development Costs In 64 Seconds" (18/06/2013). Acesso em 25/10/2026.
  4. Steam, página oficial do Gunpoint. Acesso em 25/10/2026.
  5. MCV, "VIDEO: Gunpoint dev Tom Francis teaches newcomers to make games" (07/01/2015). Acesso em 25/10/2026.

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